Escrevi coisas que se perderam – culpa dos dados voláteis?

Foi doloroso, mas tive que passar para aprender. Culpa minha ou dos dados voláteis?

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mundo digital

Falando em mundo digital, cito um recente artigo “Uma História da Escrita” (“A History of the Writing”), em que James Benshoff escreve: “A natureza aleatória da escrita é uma parte normal do processo, e lamentar suas deficiências – como se os códices fossem perfeitos – assume uma falsa crença”.

É interessante relevar essa declaração quando refleti sobre a perda de dados típica do mundo digital. É que escrevemos por meio de computadores que podem gerar arquivos de dados sujeitos a se perderem por completo.

No mundo digital, os dados são voláteis, o que significa que podem desaparecer sem aviso prévio.

Isso pode ser um problema para quem deseja publicar seus trabalhos, pois esses textos podem estar perdidos para sempre como foi o meu caso.

Coisa do passado, ok, mas doeu!

Foi doloroso, mas tive que passar para aprender. Mas também não sei se foi só um erro meu, ou o mundo dos dados é realmente muito volátil colocando à prova todo escritor que escreve digitalmente.

Perdi inúmeros roteiros de cinema, tevê e teatro, e livros que havia escrito e eram inéditos.

Verdade que nem todos terminados, pois no caso dos roteiros inéditos estes poderiam sofrer alterações na produção e direção.

Mas já no caso dos livros, eram trabalhos bastante caros a mim – coisas biográficas até, ou inspiradas na família, e por aí vai.

Um novo modo de ser no mundo digital

Choro à parte sobre o fato de que muitas coisas poderiam ter sido publicadas ou produzidas e que desde então foram parar no fundão do limbo, faço esta reflexão depois de muitos anos.

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Isso tudo ocorreu faz quase uma década atrás. Fico pensando que não adiantou eu ter imprimido a maior parte do meu trabalho, pois isso também foi perdido só que por outro motivo que não vem ao tema deste artigo-confissão.

Quero reforçar a volatilidade que os dados digitais nos trouxeram de uma hora para outra. Ok, eu troquei o hardware do meu computador, e, ainda melhor, criei novas contas em plataformas gigantes de livros digitais, assinei outras que me oferecem estabilidade, backups, rapidez no acesso às informações de minhas aplicações, mas aquilo que me foi “roubado” não terei mais. Escafedeu-se.

Questão de mentalidade

Mas toda essa perda de dados valiosos da minha parte pode ter trazido um ensinamento: de que aquilo era apenas a parte inicial do que viria a ser. Faz sentido?

É que linguagem foi criada para o propósito de transmitir pensamentos, sentimentos e conhecimento. A linguagem por si só já é volátil inteiramente, e, juntando o fato de vivermos na era da informação, os dados criados podem ser apenas uma parte da equação da produção literária.

Quantas vezes anotamos ideias para não nos esquecermos? Muitas delas nem utilizamos, mas mesmo assim algumas delas gostamos demais e nos apegamos para escrever.

Também fico pensando que a perda desse material foi necessária visto que nem tudo era passível de publicação, muito tinha a ver comigo próprio, material importante para ser refletido nada mais que isso.

Ônus do mundo digital para os escritores

Sim, o mundo dos livros mudou ou está mudando. A maioria dos escritores agora precisa da internet para publicar e promover o seu livro. Esse processo é chamado de autopublicação ou publicação a distância, que é uma forma mais fácil para os autores. Uma vez que o autor tenha o arquivo de seu livro, provavelmente no seu computador, basta se inscrever numa plataforma de publicação e publicar seu arquivo para seus eventuais leitores.

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Simples assim?

Sim e não. Sim, porque desde que o autor lance sua obra online numa plataforma de livros, é como se desse ao mundo a luz de sua escrita. Não, porque pode acontecer de entrar na conta fatores emocionais e psicológicos, como por exemplo o medo de perder o arquivo do livro no computador, junto com demais arquivos e pastas, e ficar meio desorientado em como proceder depois disso.

Trauma à parte – hoje parcialmente superado -, vejo com bons olhos viver escrevendo no digital com o sentido da impermanência.

Isso significa que não acredito na perenidade dos dados mesmo com toda tecnologia existente e ainda por vir.

Sei que às vezes é preciso lutar para que algo não seja apagado – a memória, com sorte, pode se manter por gerações até, mas os dados, duvido.

É uma reflexão apenas esse texto. É um misto de insegurança e incredulidade, a bem da verdade, um exercício e que espero tenha feito algum sentido.

Como dito inicialmente, eu escrevi tanta coisa que se perdeu e eu culpo, em boa parte, o mundo digital, cuja matéria-prima são dados voláteis colocados em hardware (físicos, portanto) sujeitos à pane e perda geral.

Catarse. Isso tudo foi uma catarse tardia, mas mesmo assim valiosa pois foi revivida novamente agora. Uma “catarse curativa” espero.

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